REVERBERAÇÕES DE ÓDIO NA POLITICA BRASILEIRA

Na Pauta Online . 21 . January . 2020 . By Maristela Basso

“Falta ao brasileiro a cultura do debate na politica e nos espaços púbicos.

Não há valores de referência comuns e essenciais à linguagem politica.

A cultura do dissenso, fundamental a todo regime democrático, carece de decoro e, no seu vazio, proliferam a raiva, a injúria, a inverdade, a crueldade e a odiosidade”.

É evidente na política brasileira atual que a cultura do dissenso está sob pressão e que o decoro democrático está em declínio.

O dissenso é um importante componente da democracia.

Democracia implica processos de negociação adequados para que decisões politicas sejam tomadas com equilíbrio de interesses, e com fulcro no bem público.

A cultura do dissenso, portanto, é um aspecto fundamental de todo regime democrático. Contudo, vê-se ultimamente no Brasil uma mudança no paradigma dos debates, no qual reina o rompante exuberante do radicalismo e das vaidades, o excesso verbal e da retórica, muitas vezes intencional, bem como reverberações de ódio, não apenas nas mídias sociais e nos meios de comunicação de massas estabelecidos, como também no Congresso Nacional.

De forma descentralizada ou concertada, parece haver prazer nos deslizes e deselegâncias verbais – uma espécie de gozo primário e arrebatador. Reafirmações pessoais e defesas de pontos de vista agressivos têm origem em segmentos que até recentemente não se viam representados.

Certamente, as transformações nos modelos de debates decorrem não apenas da alteração generalizada do uso da linguagem, como também das mudanças políticas de médio e longo prazo.

Konrad Hermann Joseph Adenauer

Como é sabido, o consenso entre os democratas requer debates constantes e entendimento continuado. Razão pela qual, o decoro democrático é fundamental. Como observou Konrad Adenauer, ex-chanceler federal da Alemanha, em entrevista concedida em 1952, “no interesse da democracia, deve-se buscar seriamente certos limites nas discussões que correm dentro e fora do Parlamento”.

A cultura da língua, do estilo e do debate deve ser estimulada dentro de padrões e valores que defendam e privilegiem o entendimento, e não gerem desunião, divisão, divergência, discórdia, desarmonia e dissonâncias. E se essas emergirem no exercício democrático devem ser aplainadas, toleradas e entendidas.

O que se vê atualmente, especialmente no Brasil, são atitudes proativas de argumentação belicosa, permeadas de ofensas, ataques e até punições – que magoam, ferem e geram obscurantismo. Raramente, o outro ponto de vista é aceito e, não admitido, deixa feridas, cicatrizes e remorsos.

Frank-Walter Steinmeier (Wikipédia)

A pergunta que se insurge é: o que representa um bom debate democrático? Resposta simples e objetiva foi dada pelo presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, na abertura de uma conferência sobre o mundo digital, em 2019. Segundo ele, de um lado, a “sensatez”, condição de convencer por meio de argumentos e também deixar-se convencer por meio do diálogo alegações melhores. E, de outro, a “civilidade”, isto é, o apreço e confiança, empatia e respeito pela contraparte cujos argumentos também trazem contribuição legítima ao debate.

Sob essa perspectiva, é importante não confundir “contraditório” e “contradição”. Diferenciação que se torna fundamental frente à indiscutível quantidade de dados e informações, textos, imagens, fotos e vídeos, ademais de opiniões, comentários, “like(s)” e curtidas enviados para tanta gente ao mesmo tempo e em múltiplos e diferentes espaços geográficos.

Com a mesma velocidade com que as informações são enviadas, a capacidade de julgamento e os processos de decisão e resposta tomam lugar sem a devida reflexão e análise, sem o acurado polimento e educação essenciais à cultura democrática.

“CONTRADITÓRIO” SIGNIFICA EXPRIMIR O CONTRÁRIO, QUESTIONAR. A ÉTICA E A LÓGICA DA POLÍTICA SE ALIMENTAM DO CONTRADITÓRIO. “CONTRADIÇÃO” IMPLICA AFIRMAÇÃO OPOSTA, INVERSA, DISCORDÂNCIA DE PONTOS DE VISTA, PERSPECTIVAS, EMOÇÕES, IDEIAS, DESEJOS. AMBOS TÊM LUGAR NA POLÍTICA, MAS EXIGEM REPERTÓRIO, MODERAÇÃO, EQUILÍBRIO, BOM SENSO E POLIDEZ.

Enquanto retóricas apocalípticas precisam ser coibidas e discursos de ódio desestimulados, espaços de liberdade devem ser aumentados e estimulados.

A capacidade de dissenso de uma sociedade revela seu grau de desenvolvimento e maturidade do seu regime democrático.

Compreender e fortalecer as culturas do dissenso, conciliar diferentes percepções, opiniões e interesses são os maiores desafios da política moderna.

Democracias se nutrem das divergências, desinteligências, diferenças, discordâncias e dos desencontros ordenados e civilizados entre as pessoas. Dai porque, é imperioso, hoje no Brasil, tornar visíveis, aceitáveis e toleráveis as diferenças, proporcionar e destacar o desenvolvimento de pontos de vista em comum, bem como buscar soluções de compromissos e amenizar tensões que são inerentes à política. Esta não pode, no seu exercício, prescindir da educação, não apenas no uso da palavra e no emprego do vernáculo, como, fundamentalmente, nos gestos, nos modos e no coração. Sem perder de vista a ética, o decoro e a liberdade.

É justo, portanto, que se aspire um país mais democrático, justo e plural, no qual as diferenças mais aproximem do que separem as pessoas.

O Brasil sempre conviveu com uma dinâmica de classes perversa e cruel, com elites econômicas e políticas ao lado de uma massa social empobrecida. As reverberações de ódio justificam-se, em grande parte, nessa estrutura de classes devassa, na qual o discurso de ódio fica impregnado na sociedade e penetra os partidos políticos e os movimentos sociais.

Assim sendo, urge que os brasileiros façam sua “mea culpa, mea maxima culpa” e comecem a mudar o modo como veem os outros, suas ideias, opiniões e desejos. Caso contrário, como disse Fernando Pessoa, “ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado à ralé dos que se julgam gênios e não foram mais que mendigos com sonhos, junto com a anônima dos que não tiveram poder para vencer, nem renúncia larga para vencer do avesso… e, então, a monotonia da vida cotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus” (Livro do Desassossego).